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O animal mais temido do mar é uma das maiores vítimas do oceano

Atualizado: 30 de abr.

Durante muito tempo, aprendemos a temer esse animal. Talvez esteja na hora de entender o que realmente ameaça sua existência.


Foto de tubarão nadando com sufista
Foto: Thomas-P-Peschak/ Wild Photographer of the Year

Imagine estar no mar e perceber uma sombra se movendo sob a superfície. Por alguns segundos, o corpo desacelera, a atenção aumenta e uma pergunta quase automática surge: o que é aquilo?

Poucos animais despertam tantas emoções ao mesmo tempo. Medo, curiosidade, respeito e fascínio costumam aparecer juntos quando falamos dos grandes predadores marinhos. Parte dessa reação vem da forma como eles foram retratados em filmes, notícias e histórias populares. Outra parte vem do simples fato de estarmos diante de um animal selvagem, adaptado há milhões de anos ao ambiente marinho.

Mas talvez o medo que sentimos diga mais sobre nós do que sobre ele.

Durante décadas, aprendemos a imaginar esse animal como uma ameaça silenciosa, sempre à espreita, pronto para atacar. A cultura popular transformou sua presença em sinal de perigo, e cada aparição no mar passou a carregar uma mistura de tensão e fascínio.

Só que essa imagem conta apenas uma parte da história.

O animal que muitos veem como vilão é, na verdade, um dos grupos mais ameaçados do oceano: os tubarões.

Afinal, tubarões são perigosos?

A resposta mais honesta é: podem oferecer risco, como qualquer grande animal selvagem, mas esse risco costuma ser muito menor do que imaginamos.

Em 2025, o International Shark Attack File confirmou 65 mordidas não provocadas de tubarão em humanos no mundo, com 9 fatalidades. O próprio banco de dados diferencia mordidas não provocadas de casos provocados, como situações em que pessoas tentam tocar, alimentar, capturar ou interagir diretamente com o animal. Ou seja, contexto importa muito.

Tubarão Branco
Foto de Gerald Schömbs na Unsplash

Seres humanos não fazem parte da dieta natural dos tubarões. A maior parte dos incidentes ocorre por erro de identificação, comportamento defensivo ou interações inadequadas. Por isso, entender esses animais é muito mais útil do que simplesmente temê-los.





Predadores antigos, sensíveis e eficientes

Os primeiros tubarões surgiram há cerca de 400 milhões de anos, muito antes dos dinossauros. Desde então, passaram por mudanças evolutivas e hoje ocupam diferentes ambientes marinhos, desde recifes tropicais até águas profundas.

Algumas espécies estão entre os maiores predadores do oceano. O tubarão-branco, por exemplo, pode se aproximar de 7 metros de comprimento e pesar mais de 2,5 toneladas. Outros grandes tubarões também impressionam pelo porte, força e capacidade de deslocamento. Esses números ajudam a explicar por que eles despertam tanto fascínio, mas também mostram como estamos falando de animais selvagens que devem ser observados com respeito.

Eles são peixes cartilaginosos, assim como as raias, e possuem sentidos extremamente desenvolvidos. Além do olfato apurado e da linha lateral, que percebe vibrações na água, muitos tubarões possuem ampolas de Lorenzini, estruturas capazes de detectar campos elétricos gerados por outros animais.

Essa combinação de sentidos faz dos tubarões predadores extremamente eficientes. Mas eficiência não significa agressividade constante. Tubarões não estão “caçando pessoas” no mar. Eles respondem ao ambiente, à presença de presas, às vibrações, aos cheiros, à luminosidade e ao comportamento dos animais ao redor.

Por isso, a grande maioria dos encontros com tubarões não termina em incidente. Em quase todos eles, os animais apenas se aproximam, observam o ambiente e seguem seu caminho. O problema é que quase nunca ouvimos falar desses encontros tranquilos. As histórias que ganham destaque são justamente as mais raras, intensas e assustadoras.

E é aí que começa a confusão: passamos a imaginar o tubarão a partir da exceção, não da regra.

Por que os tubarões são importantes?

Tubarões não são apenas predadores impressionantes. Eles exercem um papel ecológico fundamental no equilíbrio dos ecossistemas marinhos.

Como predadores, ajudam a manter as populações de peixes mais saudáveis, removendo indivíduos doentes, feridos ou mais vulneráveis. Esse comportamento pode reduzir a propagação de doenças e favorecer populações mais equilibradas ao longo do tempo.

Além disso, muitos tubarões ocupam posições elevadas na cadeia alimentar e possuem dietas variadas. Isso significa que podem alterar sua fonte de alimento quando determinada presa se torna menos disponível. Essa flexibilidade ajuda a evitar tanto o crescimento exagerado quanto o esgotamento de algumas populações de presas, contribuindo para a estabilidade do ambiente marinho.

White Shark
Foto de Marcelo Cidrack na Unsplash

A presença dos tubarões também influencia o comportamento de outros animais. Presas e herbívoros podem mudar suas áreas de circulação, alimentação e abrigo quando há grandes predadores no ambiente. Esse efeito comportamental pode se espalhar pelo ecossistema, alterando a forma como diferentes espécies usam o espaço.

Com isso, os tubarões podem influenciar indiretamente até a estrutura física de determinados ambientes marinhos. Ao modificar o comportamento de herbívoros e outras presas, eles podem afetar áreas de alimentação, o crescimento de plantas marinhas, a dinâmica dos recifes e a saúde dos corais. Por isso, remover um predador de topo da cadeia alimentar não afeta apenas uma espécie, pode gerar consequências em cascata, mudando relações ecológicas, alterando populações e comprometendo o equilíbrio de todo o ecossistema.

Tubarão limão em um cardume de peixes
Foto de Kris-Mikael Krister na Unsplash

Essa preocupação já aparece em escala global. Um estudo publicado na Nature avaliou mais de 15 mil estações de vídeo subaquático com isca em 371 recifes de 58 países e não registrou tubarões em quase 20 por cento dos recifes analisados. O estudo associou essa ausência principalmente ao impacto da pesca, além de fatores como proximidade de mercados, densidade populacional e governança mais frágil. Por outro lado, áreas com santuários de tubarões, restrições de pesca e ausência de redes de emalhe e espinhéis apresentaram maior abundância relativa desses animais.

Encontrar tubarões em uma área, portanto, não deve ser visto apenas como sinal de perigo. Muitas vezes, é justamente o contrário: pode ser um sinal de que aquele ambiente ainda conserva parte importante de sua vida selvagem. Ou seja, a presença de tubarões não é o problema. Em muitos casos, o problema é justamente o desaparecimento deles.

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A maior ameaça aos tubarões somos nós

Apesar da imagem de predadores invencíveis, muitos tubarões são animais vulneráveis. Grande parte das espécies cresce devagar, demora para atingir a maturidade sexual e gera poucos filhotes quando comparada a muitos peixes ósseos. Essa estratégia de vida funcionou por milhões de anos, mas não acompanha o ritmo da pesca moderna.

Hoje, os tubarões enfrentam pressões em escala global. Segundo a IUCN, mais de um terço das espécies de tubarões, raias e quimeras está ameaçado de extinção. A principal ameaça é a sobrepesca, tanto pela captura direta quanto pela captura acidental em pescarias voltadas a outras espécies.


nadadeiras de tubarão para a prática de finning
AP Photo/Kin Cheung, File

A pesca de tubarões ocorre por diferentes motivos: carne, nadadeiras, óleo, cartilagem e outros produtos. Entre esses usos, a sopa de barbatana de tubarão se tornou um dos exemplos mais conhecidos, principalmente por estar associada a status, luxo e alto valor comercial em alguns mercados. Esse comércio ajudou a tornar as nadadeiras um produto bastante valorizado, estimulando práticas ilegais ou insustentáveis em diversas regiões.

Ainda assim, o problema não se resume à sopa de barbatana. A pressão sobre tubarões é muito mais ampla e envolve diferentes cadeias de pesca e consumo. Muitos animais são capturados diretamente para venda da carne e de outros produtos, enquanto outros morrem como captura acidental em pescarias voltadas a atuns, espadartes e outras espécies de interesse comercial.

No Brasil, esse ponto merece atenção especial. A carne vendida como cação pode ser carne de tubarão ou de raia. Isso significa que muitas pessoas consomem esses animais sem saber exatamente o que estão comprando.

O Brasil não está fora dessa história. Estudos baseados em dados da FAO já apontaram o país como o 11º maior produtor e o maior importador mundial de carne de tubarão. Na prática, isso significa que a ameaça aos tubarões também passa pelo nosso prato, muitas vezes escondida sob uma palavra comum nos mercados e restaurantes: cação.

O problema é que o tubarão raramente chega ao prato com esse nome.

Tubarões mo
Reprodução: pressreader.com

Ele chega disfarçado por uma palavra mais neutra, mais aceita e menos incômoda: cação. Para muitos consumidores, cação parece apenas mais um peixe branco vendido em postas, fácil de preparar e comum em peixarias, mercados e restaurantes. Mas, por trás desse nome genérico, podem estar espécies ameaçadas, animais capturados de forma pouco transparente e predadores importantes para o equilíbrio do oceano.

Além do impacto ambiental, existe também uma preocupação de saúde pública. Por ocuparem posições elevadas na cadeia alimentar, algumas espécies podem acumular contaminantes, como mercúrio e outros metais pesados. Por isso, consumir cação não é apenas uma escolha alimentar comum. Também pode envolver riscos pouco conhecidos.

Esse é um ponto importante porque muda a forma como enxergamos o problema. A ameaça aos tubarões não está apenas em mercados distantes, na sopa de barbatana ou em práticas que parecem longe da nossa realidade. Ela também pode estar no consumo cotidiano, em uma palavra aparentemente inofensiva no cardápio ou na bancada do mercado.

Enquanto muita gente tem medo de encontrar um tubarão no mar, muitas pessoas podem estar consumindo esse animal sem perceber. E talvez seja aí que a história fique ainda mais desconfortável: o animal que aprendemos a temer é também um animal que exploramos, pescamos, vendemos e consumimos em grande escala.


O fascínio de encontrar um tubarão no mar

Tubarão em alta definição
Foto de David Clode na Unsplash

Encontrar um tubarão durante um mergulho é uma experiência quase mágica. A perfeição de suas linhas, a precisão de seus sentidos e a forma como se movimenta no ambiente tornam esse encontro fascinante.

Alguns cuidados são necessários, como em qualquer interação com a vida selvagem. Mas, quando o mergulhador sabe agir bem embaixo d’água, mantém bom controle de flutuabilidade e, acima de tudo, respeita a vida marinha, esses animais podem proporcionar experiências inesquecíveis.

Tubarão martelo
Foto de David Clode na Unsplash

Quando o encontro acontece dessa forma, sem interferência, ele se torna ainda mais marcante. O tubarão não está ali para nos impressionar. Ele simplesmente pertence àquele lugar. Observar sua presença no azul é uma lembrança poderosa de que o oceano ainda guarda vida selvagem, beleza e equilíbrio.E existe também uma dimensão econômica nessa história. Um tubarão morto só pode ser vendido uma vez. Já um tubarão vivo pode gerar valor por muitos anos, atraindo mergulhadores, fortalecendo o turismo de natureza e criando oportunidades para comunidades costeiras que dependem de um oceano saudável.

Quantos mergulhadores viajariam longas distâncias e pagariam valores elevados para observar tubarões vivos em segurança, no ambiente natural deles? Essa pergunta mostra que conservar esses animais não é apenas uma escolha ética ou ecológica. Também pode ser uma decisão inteligente do ponto de vista econômico.

O medo reduz o tubarão a uma ameaça. O conhecimento permite enxergar um animal antigo, essencial e vulnerável, cuja presença no mar deveria despertar cautela, mas também admiração. Depois de entender seu papel no equilíbrio do oceano, fica mais difícil olhar para esses predadores apenas como vilões. Eles fazem parte da vida selvagem que torna o mergulho tão especial, e protegê-los é também proteger a beleza, a saúde e a força dos ambientes marinhos.

Você já encontrou um tubarão durante um mergulho? Conta para a gente como foi essa experiência.

E se você quer viver o mergulho com mais conhecimento, segurança e respeito pela vida marinha, vem com a Tatauga Dive respirar embaixo d’água.

 
 
 
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